quinta-feira, 3 de julho de 2014

A Orch Filmes (o braço audiovisual do Arte de flanar) recomenda o filme A farra do Circo de Roberto Berliner e Pedro Bronz, em cartaz nos cinemas.

O filme é um mergulho nas imagens, nos sons e na ideologia de um momento fervilhante da cultura carioca dos anos 80.

Muito do que a gente viu no discurso de junho do ano passado já estava vivo e pulsante ali; a anarquia artística, a sexualidade lúdica e a mobilização política pela união e ação direta.

O filme é uma colagem de arquivos. Não há nenhum imagem filmada nos dias atuais e o que me pareceu a princípio fraco é uma delícia. Descansa nosso olhar da perfeição estéril do HD e mostra que o "erro" da filmagem pode ser seu maior trunfo.

Alguns depoimentos são memoráveis, como o do Perfeito Fortuna ao deixar o México após a Coca-Cola sair do projeto que os levou até lá durante a Copa de 86. Assim como a sinceridade de uma criança apontando que não tinha gostado da falta de organização da "comitiva". Uma sutil autocrítica dentro de um documentário realmente sincero e empolgante.

E sem dúvida o final é seu ponto máximo. Mas tem que ir lá ver...

terça-feira, 17 de junho de 2014

The World Cup of Lazy Journalism

While finishing up a news story for my current employer, a foreign news agency emailed me asking if any vehicles were on fire because of that days’ bus strike. They’d seen footage from the last time the citizens of Rio made their feelings known and were looking for something in a similar shade of Angry Violent Brazilian. They didn’t mention the middle class workers who couldn’t afford their basic needs and focused on large things burning because, of course, “that’s what makes good TV.”
Though I couldn’t see anything on fire from my Copacabana hotel room, I checked some local sources to see if there was anything with wheels being burned anywhere and found that on this night, the protesters of Rio were keeping their anger to themselves.
When I relayed to the foreign (let’s call it American) news agency that nothing relevant was on fire, but that I could probably get them an intimate portrait of one of the bus drivers on strike, the emails stopped. No carnage, no story.
As someone who only gets paid when someone buys the stories I’m selling, I thought about writing them back and pitching something using buzzwords like “favela violence” or “police shot/killed…” or simply “FAVELA!!!”, but I thought it best to finish the work I was currently being paid for.
Talking to journalists throughout Brazil these last few weeks of covering the buildup to the World Cup, the one thing they all say is that the only stories editors across the world are interested in fall into the Angry Violent Brazilian Who Might Mess Up The World Cup category, or what can only be described as “poverty porn.” Camera people who are based here say the same thing–everyone wants shots of people being poor in the favelas and/or angry young people in masks and headscarfs. They are filming the exact same story over and over, just in different languages.
Every journalist talked with regret and helplessness. There are stories here with more depth that deserve to be told, but that’s not what’s selling.
I’m not immune to this formula. I’ve interviewed several protesters, strikers and people simply upset with the Brazilian government. As I’m here to cover World Cup-related stories, I pushed them to mold their experience to the World Cup, even if all they really wanted to talk about was wondering how they were going to feed their kid the next day.
One journalist said the reason it’s like this is because television news feels it’s competing with reality television. If a majority of the country had to choose between a thoughtful profile of a family from another country trying to make ends meet and a faux-famous family on a luxury vacation, apparently they’ll always choose the latter.
But that’s not my taste and it doesn’t seem to be the taste of the journalists I spoke to. But are we the audience? Apparently not. News agencies and TV networks seem to only care about whether males aged 25 to 49 are going to look up from their iPhone for a few minutes and they believe the only way that’s going to happen is if something’s on fire or more importantly, something “could” potentially be on fire.
Has the media trained the viewing public or is this what the viewing public really wants? If all the news outlets decided to stop focusing on scaring us and turned their attention to a well-rounded, moderate telling of the facts, would the soccer moms in Iowa revolt?
The truth is that while of course there are some terrible things happening in some of the hundreds of favelas in Rio and there have been necessary protests and there are threats of more, there are many, many more stories that can and should be told. For example, the Asa Branca favela is the happiest place I’ve been to in Rio yet it’s three decades of remarkable architectural progress is being threatened by wealthy developers. The recently evicted residents of the former Telerj complex I spoke to turned down the offer of Bolsa Família, Brazil’s cash transfer welfare program, because they didn’t want a handout, they just want a roof over their heads. And in Maré, the site of the latest police occupation, there is inspiring community organizing and engaging public security debates happening.
Would people around the world care about these stories? Isn’t part of our job to educate? When you look at the accompanying photo what do you see? Do the words “slum” or “poverty” come to mind? Or do you see history and culture and what can only be viewed as a remarkable architectural achievement?
Fear and sensationalism are easy to produce. Stories with depth take time. Take time to make. Take time to watch. News agencies want 15 seconds of a bus on fire, 10 seconds of someone yelling angrily into a camera, and a five second quote to put fear into World Cup tourists.
All of us–journalists, editors, and those with the remotes in our hands–owe it to the people on the ground and to ourselves to do much better.

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quarta-feira, 4 de junho de 2014

Relembrando o Retrato


Ontem fui ver Moscou e ouvir João Moreira Salles falar de Eduardo Coutinho na PUC. Na mesma sala 102K em que, há 10 anos exatos,  fiz uma matéria eletiva de documentário com João. 

Nesta época, vi um filme que me abalou muito, "Retrato de Classe". Um filme que fala sobre projeção e realidade, sobre sair da escola e ir viver a vida. Sobre a classe média, tão pouco retratada no cinema documentário brasileiro.

Me vi na tela. Eu estava num momento exatamente anterior ao retratado no filme, cheia de expectativas e muitos medos. Prestes a sair da escola. (No meio daquele ano eu me formaria em jornalismo, sem saber muito o rumo que iria tomar).

Eu estava à flor da pele e tinha que pensar no filme, escrever sobre o filme, teorizar sobre o cinema brasileiro documental. E eu simplesmente só conseguia sentir a minha experiência diante da tela.

Foi ai que pela primeira vez, depois de quatro anos escrevendo textos racionais, com citações e elaborações, resolvi chutar o balde e escrever uma poesia e entregar como produto final. Para João Moreira Salles avaliar.

Achei aquilo muito legal e acho até hoje, até por que sempre tive medo de poesia.
Principalmente das minhas, claro. Que não são muito de se esconder, o que é certamente um defeito. Foi para mim uma ousadia.

Mas foi assim... Escrevi e realmente me despi ali. Lendo hoje vejo toda a minha confusão da época, minha angustia revelada de sair daquele local quentinho, acolhedor, seguro e criativo que era a faculdade, para então cair no mundo. Entrar na jaula do leão, sem entender nem uma fração do que era a realidade. Que medo.

João tirou dois décimos da nota máxima do meu poema e justificou, além de outras coisas,  dizendo que eu estava colocando muita responsabilidade nos outros para o fim dos personagens do filme. Toda razão. 

Mas hoje eu ainda penso que há motivos também para quem vê responsabilidade no mundo, nas coisas, na família, na sociedade, para os fracassos. A revolta é justa, ainda acho. Pois a correnteza parece ser mesmo contra. Se não, porque seria tão difícil e raro as pessoas se realizarem hoje em dia, principalmente no Brasil, e fazerem aquilo que desejaram um dia quando crianças ou jovens? Mesmo aqueles que não estão na base da pirâmide?

Indo até mais fundo e usando a referencia de um outro filme, a cena dos adolescente de Santa Marta: duas semanas no Morro, revela que para outras classes nesse país, nem sonhar é mais permitido, se revela quase perda de tempo. Marcinho VP estava ali para testemunhar. 

Estar em um mundo em que a realização da vocação e da felicidade é artigo raro é mesmo triste, mesmo que querer o o oposto seja idealismo pueril. Acho que foi por isso que me emocionei ao ver o Retrato de Classe, da minha classe, e por sentir que se bobeasse eu iria pelo mesmo caminho.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Bem triste perceber que nós aqui começamos a falar sozinhos, que o tal Gigante está mesmo voltando a dormir e a fechar os olhos para o óbvio, que estamos prestes a viver um grande e "democrático" estado de sitio. Prisões aleatórias, leis mudando de um dia pra a noite, conselhos sendo formados para investigarem "ações criminosas", policiamento reforçado e cobiçado nas ruas.

Exagero? Muitos dirão, afinal não são mais os manifestantes, são os vândalos, os que incitam a violência e esses precisam ser coibidos. Cacetete neles!!

Semelhanças com outras épocas e outros personagens históricos não é mera coincidência. O inimigo foi criado e a sociedade adora um inimigo certo para dormir tranquila, acreditando que o Estado está resolvendo o problema para ela.

Enquanto isso a liberdade, a fraternidade e a igualdade escorrem pelo ralo.

Mas quem não cultiva esses princípios em si, não se importa de não tê-los na sociedade.

Infelizmente, parece que o gigante não se importa mesmo com essas três palavrinhas tão fundamentais para a vida humana verdadeira. Eles querem mesmo é ver TV tranquilos.

sábado, 13 de julho de 2013

Discurso Snowden 12_06_2013

Olá, meu nome é Ed Snowden. Há pouco mais de um mês, eu tinha família, um lar no Paraíso, e vivia com muito conforto. Eu também tinha a capacidade de, sem qualquer autorização, procurar, tomar e ler as suas mensagens. Na verdade, as mensagens de qualquer pessoa, a qualquer momento. Este é o poder de mudar o destino das pessoas.
Também é uma séria violação da lei. As emendas 4 e 5 da Constituição do meu país, o artigo 12 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e numerosos estatutos e tratados proíbem tais sistemas de vigilância massiva e invasiva. Enquanto a Constituição dos Estados Unidos assinala que estes programas são ilegais, o meu governo argumenta que juízos de um tribunal secreto, que o mundo não pode ver, de alguma forma legitima esta atividade ilegal. Estes juízos simplesmente corrompem a noção mais básica de justiça, que precisa ser revelado. Algo imoral não pode se tornar moral através do uso de uma lei secreta.
Eu acredito no princípio declarado em Nuremberg, em 1945: “Indivíduos têm deveres internacionais que transcendem as obrigações nacionais de independência. Portanto cidadãos individuais têm o dever de violar leis domésticas para impedir a ocorrência de crimes contra a paz e a humanidade."
Conforme esta crença, fiz o que eu acreditava ser certo e comecei uma campanha para corrigir estas ações erradas. Não procurei enriquecer, nem vender segredos dos Estados Unidos. Não me aliei a qualquer país estrangeiro para garantir a minha segurança. Ao invés, revelei o que eu conhecia ao público, de tal modo que aquilo que afeta a todos nós possa ser discutido por todos nós à luz do dia, e pedi justiça ao mundo.
A decisão moral de tornar pública a espionagem que nos afeta a todos me custou muito, mas era o correto a fazer, e não me arrependo de nada.
Desde então o governo e os serviços de inteligência dos Estados Unidos vêm tentando fazer de mim um exemplo, um aviso para todos aqueles que quiserem vir a público como eu vim. O governo dos EUA me colocou numa lista de impedidos de viajar.
Pediu a Hong Kong que me deportasse de volta, à margem da suas leis, numa clara violação do princípio de proteção – na Lei das Nações. Ameaçou com sanções países que defenderam meus direitos humanos e o sistema de asilo previsto pela ONU. Tomou inclusive a decisão sem precedentes de ordenar a aliados militares que forçassem o pouso de um avião presidencial latino-americano, na busca por um refugiado político.
Esta escalação perigosa representa uma ameaça não só para a dignidade da América Latina, mas aos direitos fundamentais compartilhados por qualquer pessoa, qualquer nação, no sentido de viver sem perseguições, de procurar e desfrutar de asilo.
Ainda assim, diante desta agressão historicamente desproporcional, países ao redor do mundo me ofereceram apoio e asilo. Estas nações – inclusive a Rússia, a Venezuela, a Nicarágua, a Bolívia e o Equador, têm minha gratidão e respeito por serem as primeiras a se erguer contra a violação de direitos humanos levada a cabo pelos poderosos, não pelos indefesos. Por recusarem a comprometer seus princípios diante das intimidações, ganharam o respeito do mundo. Tenho a intenção de viajar a cada um destes países para levar  pessoalmente meus agradecimentos a seus povos e líderes.
Anuncio hoje minha aceitação formal de todas as ofertas de apoio e asilo que foram feitas, e todas que forem feitas no futuro. Como, por exemplo, a garantia de asilo concedida pelo presidente Maduro da Venezuela, minha condição de asilado agora está formalizada, e nenhum Estado tem base legal para limitar ou interferir com meu direito de desfrutar deste asilo. Porém, como já vimos, alguns países na Europa Ocidental e os Estados Unidos demonstraram sua disposição de atuar por fora da lei, e esta disposição ainda está de pé hoje. Esta ameaça fora da lei torna impossível minha viagem à América Latina para desfrutar do asilo lá concedido segundo nossos direitos comuns.
A disposição de Estados poderosos de agir à margem da lei representa uma ameaça para todos nós e não se deve permitir que ela tenha sucesso. Portanto, peço vossa ajuda [a organizações humanitárias no sentido de garantir o direito de passagem em segurança através das nações pertinentes, para assegurar minha viagem à América Latina, bem como no sentido de pedir asilo na Rússia até que estes Estados aceitem a lei e que minha meu direito legal de viajar seja permitido. Estarei apresentando meu pedido [de asilo] à Rússia hoje, e eu espero que ele seja aceito.
Se vocês têm quaisquer perguntas, responderei na medida do meu alcance.
Obrigado.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Está tudo tão estranho, e não é à toa.

Um relato do quebra-cabeças que fui montando nos últimos dias. Aviso que o post é longo, mas prometo fazer valer cada palavra.

Click here for the English translation.
[*nota da autora, adicionada após muitos comentários e compartilhamentos desviando um pouco o sentido do texto: este é um texto de esquerda]
Começo explicando que não ia postar este texto na internet. Com medo. Pode parecer bobagem, mas um pressentimento me dizia que o papel impresso seria melhor. O papel impresso garantiria maiores chances de as pessoas lerem tudo, menores chances de copiarem trechos isolados destruindo todo o raciocínio necessário.
Enquanto forma de comunicação, o texto exige uma linearidade que é difícil. Difícil transformar os fatos, as coisas que vi e vivi nos últimos dias em texto. Estou falando aqui das ruas de São Paulo e da diferença entre o que vejo acontecer e o que está sendo propagandeado nos meios de comunicação e até mesmo em alguns blogs.
Talvez essa dimensão da coisa me seja possível porque conheço realmente muita gente, de vários círculos; talvez porque sempre tenha sido ligada à militância política, desde adolescente; talvez porque tenha tido a oportunidade de ir às ruas; talvez porque pude estar conectada na maior parte do tempo. Não sei. Mas gostaria de compartilhar com vocês.
E gostaria que, ao fim, me dissessem se estou louca. Eu espero verdadeiramente que sim, pois a minha impressão é a de que tudo é muito mais grave do que está parecendo.

Tentei escrever este texto mais ou menos em ordem cronológica. Se não foi uma boa estratégia, por favor me avisem e eu busco uma maneira melhor de contar. Peço paciência. O texto é longo.

1. Contexto é bom e mantém a pauta no lugar

Hoje é dia 18 de junho de 2013. Há uma semana, no dia 10, cerca de 5 mil pessoas foram violentamente reprimidas pela Policia Militar paulista na Avenida Paulista, símbolo da cidade de São Paulo. Com a transmissão dos horrores provocados pela PM pela internet, muitas pessoas se mobilizaram para participar do ato seguinte, que seria realizado no dia 13. A pauta era a revogação no aumento das tarifas de ônibus, que já são caras e já excluem diversos cidadãos de seu direito de ir e vir, frequentando a própria cidade onde moram.
No dia 13, então, aconteceu a primeira coisa estranha, que acendeu uma luzinha amarela (quase vermelha de tão laranja) na minha cabeça: os editoriais da folha e do estadão aprovavam o que a PM tinha feito no dia 10 de junho e, mais do que isso, incentivavam ações violentas da pm “em nome do trânsito” [aliás, alguém me faz um documentário sensacional com esse título, faz favor? ]. Guardem essa informação.
Logo após esses editoriais, no fim do dia, a PM reprimiu cerca de 20mil pessoas. Acompanhei tudo de casa, em outra cidade. Na primeira hora de concentração para a manifestação foram presas 70 pessoas, por sua intenção de participar do protesto. Essa intenção era identificada pela PM com o agora famoso “porte de vinagre” (já que vinagre atenua efeitos do gás lacrimogêneo). Muitas pessoas saíram feridas nesse dia e, com os horrores novamente transmitidos - mas dessa vez também pelos grandes meios de comunicação, inclusive esses dos editoriais da manhã, que tiveram suas equipes de reportagem gravemente feridas -, muita gente se mobilizou para o próximo ato.

2. Desonestidade pouca é bobagem

No próprio dia 13, à noite, aconteceu a segunda “coisa estranha”. Logo no final da pancadaria na região da Paulista, sabíamos que o próximo ato seria na segunda-feira, dia 17 de junho. Me incluíram num evento no Facebook, com exatamente o mesmo nome dos eventos do MPL, as mesmas imagens, bandeiras, etc. Só que marcado para sexta-feira, o dia seguinte. Eu dei “ok”, entrei no evento, e comecei a reparar em posts muito, mas muito esquisitos. Bandeiras que não eram as do MPL (que conheço desde adolescente), discursos muito voltados à direita, entre outros. O que estava ali não era o projeto de cidade e de país que eu defendo, ou que o MPL defende.
Dei uma olhada melhor: eram três pessoas que haviam criado o evento. Fucei o pouco que fica público no perfil de cada um. Não encontrei nenhuma postagem sobre nenhuma causa política. Apenas postagens sobre outros assuntos. Lá no fim de um dos perfis, porém, encontrei uma postagem com um grupo de pessoas em alguma das tais marchas contra a corrupção. Alguma coisa com a palavra “Juventude”, não me lembro bem. Ficou claro que não tinha nada a ver com o MPL e, pior que isso, estavam tentando se passar pelo MPL.
Alguém me deu um toque e observei que a descrição dizia o trajeto da manifestação (coisa que o MPL nunca fez, até hoje, sabiamente). Além disso, na descrição havia propostas como “ir ao prédio da rede globo” e “cantar o hino nacional”, “todos vestidos de branco”. O alerta vermelho novamente acendeu na minha cabeça. Hino nacional é coisa de integralista, de fascista. Vestir branco é coisa de movimentos em geral muito ou totalmente despolitizados. Basta um mínimo de perspectiva histórica pra sacar. Pois bem.
Ajudei a alertar sobre a desonestidade de quem quer que estivesse organizando aquilo e meu alerta chegou a uma das pessoas que, parece, estavam envolvidas nessa organização (ou conhecia quem estava). O discurso dela, que conhece alguém que eu conheço, era totalmente despolitizado. Ela falava em “paz”, “corrupção” e outras palavras de ordem vazias que não representam reivindicação concreta alguma, e muito menos um projeto de qualquer tipo para a sociedade, a cidade de São Paulo, etc. Mais um pouco de perspectiva histórica e a gente entende no que é que palavras de ordem e reivindicações vazias aleatórias acabam. Depois de fazer essa breve mobilização na internet com várias outras pessoas, acabaram mudando o nome e a foto do evento, no próprio dia 13 de noitão. No dia seguinte transferiram o evento para a segunda-feira, “para unir as forças”, diziam.

3. E o juiz apita! Começa a partida!

Seguiu-se um final de semana extremamente violento em diversos lugares do país. Era o início da Copa das Confederações e muitos manifestantes foram protestar pelo direito de protestarem. O que houve em sp mostrou que esse direito estava ameaçado. Além disso, com a tal “lei da copa”, uma legislação provisória que vale durante os eventos da FIFA, em algumas áreas publicas se tornam proibidas quaisquer tipos de manifestações políticas. Quer dizer, mais uma ameaça a esse direito tão fundamental numa [suposta] democracia.
No final de semana as manifestações não foram tão grandes, mas significativas em ao menos três cidades: Belo Horizonte, Brasília e Rio de Janeiro. No DF e no RJ as polícias militares seguiram a receita paulista e foram extremamente violentas. A polícia mineira, porém, parecia um exemplo de atuação cidadã, que repassamos, compartilhamos e apoiamos em redes sociais do lado de cá do sudeste.
Não me lembro bem, mas acho que foi no intervalo entre uma coisa e outra que percebi a terceira “coisa estranha”. Um pouco depois do massacre na região da Paulista, e um pouco antes do final de semana de horrores, mais um sinal: ficamos sabendo que uma conhecida distante, depois do dia 13, pegou um ônibus para ir ao Rio de Janeiro. Essa pessoa contou que a PM paulista parou o ônibus na estrada, antes de sair do Estado de São Paulo. Mandaram os passageiros descerem e policiais entraram no veículo. Quando os passageiros subiram novamente, todas as coisas, bolsas, malas e mochilas estavam reviradas. A policial perguntou a essa pessoa se ela tinha participado de algum dos protestos. Pediu pra ver o celular e checou se havia vídeos, fotografias, etc.
Não à toa e no mesmo “clima”, conto pra vocês a quarta “coisa estranha”: descobrimos que, após o ato em BH, um rapaz identificado como uma das lideranças políticas de lá foi preso, em sua casa. Parece que a nossa polícia exemplar não era tão exemplar assim, mas agora ninguém compartilhava mais. Coisas semelhantes aconteceram em Brasília, antes mesmo das manifestações começarem.

4. Sequestraram a pauta?

Então veio a segunda-feira. Dia 17 de junho de 2013. Ontem. Havia muita gente se prontificando a participar dos protestos, guias de segurança compartilhados nas redes, gente montando pontos de apoio, etc. Uma verdadeira mobilização para que muita gente se mobilizasse. Estávamos otimistas.
Curiosamente, os mesmos meios de comunicação conservadores que incentivaram as ações violentas da PM na quinta-feira anterior (13) de manhã, em seus editoriais, agora diziam que de fato as pessoas deveriam ir às ruas. Só que com outras bandeiras. Isso não seria um problema, se as pessoas não tivessem, de fato, ido à rua com as bandeiras pautadas por esses grupos políticos (representados por esses meios de comunicação). O clima, na segunda-feira, era outro. Era como se a manifestação não fosse política e como se não estivesse acontecendo no mesmo planeta em que eu vivo. Meu otimismo começou a decair.
A pauta foi sequestrada por pessoas que estavam, havia alguns dias, condenando os manifestantes por terem parado o trânsito, e que são parte dos grupos sociais que sempre criminalizaram os movimentos sociais no Brasil (representados por um pedaço da classe política, estatisticamente o mais corrupto - não, não está nem perto de ser o PT -, e pelos meios de comunicações que se beneficiam de uma política de concessões da época da ditadura). De repente se falava em impeachment da presidenta. As pessoas usavam a bandeira nacional e se pintavam de verde e amarelo como ordenado por grandes figurões da mídia de massas, colunistas de opinião extremamente populares e conservadores.
As reações de militantes variavam. Houve quem achasse lindo, afinal de contas, era o povo nas ruas. Houve quem desconfiasse. Houve quem se revoltasse. Houve quem, entre todos os sentimentos possíveis, ficasse absolutamente confuso. Qualquer levante popular em que a pauta não eh muito definida cria uma situação de instabilidade política que pode virar qualquer coisa. Vimos isso no início do Estado Novo e no golpe de 1964, ambos extremamente fascistas. Não quer dizer que desta vez seria igual, mas a história me dizia pra ficar atenta.

5. Não, sequestraram o ato!

A passeata do dia 17, segunda-feira, estava marcada para sair do Largo da Batata, que fica numa das pontas da avenida Faria Lima. Não se sabia, não havia decisão ainda, do que se faria depois. Aos que não entendem, a falta de um trajeto pré-definido se justifica muito bem por duas percepções: (i) a de que é fácil armar emboscadas para repressão quando divulga-se o trajeto; e, (ii) mais importante do que isso, a percepção de que são as pessoas se manifestando, na rua, que devem definir na hora o que fazer. [e aqui, se vocês forem espertos, verão exatamente onde está a minha contradição - que não nego, também me confunde]
A passeata parecia uma comemoração de final de copa do mundo. Irônico, não? Começamos a teorizar (sem muita teoria) que talvez essa fosse a única referência de manifestações públicas que as pessoas tivessem, em massa:o futebol. Os gritos eram do futebol, as palavras de ordem eram do futebol. Muitas camisetas também eram do futebol. Havia inclusive uns imbecis soltando rojões, o que não é muito esperto pois pode gerar muito pânico considerando que havia poucos dias muita gente ali tinha sido bombardeada com gás lacrimogêneo. Havia pessoas brincando com fogo. [guardem essa informação do fogo também]
Agora uma pausa: vocês se lembram do fato estranho número dois? O evento falso no facebook? Bom, o trajeto desse evento falso incluía a Berrini, a ponte Estaiada e o palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado. Reparem só.
Quando a passeata chegou ao cruzamento da Faria Lima com a Juscelino, fomos praticamente empurrados para o lado direito. Nessa hora achamos aquilo muito esquisito. Em nossas cabeças, só fazia sentido ir à Paulista, onde havíamos sido proibidos de entrar havia alguns dias. Era uma questão de honra, de simbologia, de tudo. Resolvemos parar para descobrir se havia gente indo para o lado oposto e subindo a Brigadeiro até a Paulista. Umas amigas disseram que estavam na boca do túnel. Avisei pra não irem pelo túnel que era roubada. Elas disseram então que estavam seguindo a passeata pela ponte, atravessando a Marginal Pinheiros.
Demoramos um tanto pra descobrirmos, já prontos pra ir para casa broxados, que havia gente subindo para o outro lado. Gente indo à esquerda. Era lá que preferíamos estar. Encontramos um outro grupo de pessoas conhecidas e amigas e seguimos juntos. As palavras de ordem não mudaram. Eram as mesmas em todos os lugares. As pessoas reproduziam qualquer frase de efeito tosca de maneira acrítica, sem pensar no que estavam dizendo. Efeito “multidão”, deve ser.
As frases me incomodaram muito. Nem uma só palavra sobre o governador que ordenara à PM descer bala, cassetete e gás na galera havia poucos dias. Que promove o genocídio da juventude negra nessa cidade todos os dias, há 20 anos. Nem mesmo uma. Os culpados de todos os problemas do mundo, para os verde-amarelos-bandeira-hino eram o prefeito e a presidenta. Ou essas pessoas são ignorantes, ou são extremamente desonestas.
Nem chegamos à Paulista, incomodados com aquilo. Fomos para casa nos sentindo muito esquisitos. Aí então conseguimos entender que aquelas pessoas do evento falso no facebook tinham conseguido de alguma maneira manobrar uma parte muito grande de pessoas que queria ir se manifestar em outro lugar. A falta de informação foi o que deu poder para esse grupo naquele momento específico. Mas quem era esse grupo? Não sei exatamente. Mas fiquei incomodada.

6. O centro em chamas.

Quem diria que essa sensação bizarra e sem nome da segunda-feira faria todo sentido no dia seguinte? Fez. Infelizmente fez. O dia seguinte, “hoje”, dia 18 de junho de 2013, seria decisivo. Veríamos se as pessoas se desmobilizariam, se a pauta da revogação do aumento se fortaleceria. Essa era minha esperança que, infelizmente, não se confirmou. A partir daqui são todos fatos recentes, enquanto escrevo e vou tentar explica-los em ordem cronológica. Aviso que foram fazendo sentido aos poucos, conforme falávamos com pessoas, ouvíamos relatos, descobríamos novas informações. Essa é minha tentativa de relatar o que eu vi, vivi, experienciei.
No fim da tarde, pegamos o metrô Faria Lima lotadíssimo um pouco depois do horário marcado para a manifestação. Perguntei na internet, em redes sociais, se o ato ainda estava na concentração ou se estava andando, e para onde. Minha intenção era saber em qual estação descer. Me disseram, tomando a televisão como referencia (que é a referencia possível, já que não havia um único comunicado oficial do MPL em lugar algum) que o ato estava na prefeitura. Guardem essa informação.
Fomos então até o metrô República. Helicópteros diversos sobrevoavam a praça e reparei na quinta “coisa estranha”: quase não havia polícia. Acho que vimos uns três ou quatro controlando curiosamente a ENTRADA do metrô e não a saída… Quer dizer, quem entrasse no metro tinha mais chance de ser abordado do que quem estava saindo, ao contrário do dia 13.
A manifestação estava passando ali e fomos seguindo, até que percebemos que a prefeitura era outro lado. Para onde estavam indo essas pessoas? Não sabíamos, mas pelos gritos, pelo clima de torcida de futebol, sabíamos que não queríamos estar ali, endossando algo em que não acreditávamos nem um pouco e que já estávamos julgando ser meio perigoso. Quando passamos em frente à câmara de vereadores, a manifestação começou a vaiar e xingar em massa. Oras, não foram eles também que encheram aquela câmara com vereadores? O discurso de ser “apolítico” ou “contra” a classe política serve a um único interesse, a história e a sociologia nos mostram: o dos grupos conservadores para continuarem tocando a estrutura social injusta como ela é, sem grandes mudanças. Pois era esse o discurso repetido ali.
Resolvemos então descer pela rua Jandaia e tentar voltar à Sé, pois disseram nas redes sociais que o ato real, do MPL, estava no Parque Dom Pedro. Como aquilo fazia mais sentido do que um monte de pessoas bem esquisitas, com cartazes bem bizarros, subindo para a Paulista, lá fomos nós.
Outro fato estranho, número seis: no meio da Rua Jandaia, num local bem visível para qualquer passante nos viadutos do centro, um colchão em chamas. A manifestação sequer tinha passado ali. Uma rua deserta e um colchão em chamas. Para quê? Que tipo de sinal era aquele? Quem estava mandando e quem estava recebendo? Guardamos as mascaras de proteção com medo de sermos culpados por algo que não sabíamos sequer de onde tinha vindo e passamos rápido pela rua.
Cruzamos com a mesma passeata, mais para cima, que vinha lá da região que fica mais abaixo da Sé, mas não sabíamos ainda de onde. Atrás da catedral, esperamos amigos. Uma amiga disse que o marido estava chateado porque não conseguiu pegar trem na Vila Olímpia. Achamos normal, às vezes a CPTM trava mesmo, daí essa porcaria de transporte e os protestos, etc. pois bem. Guardem a informação.
Uma amiga ligou dizendo que estava perto do teatro municipal e do Vale do Anhangabaú, que estava “pegando fogo”. Imbecil que me sinto agora, na hora achei que ela estava falando que estava cheio de gente, bacana, legal. [que tonta!] Perguntei se era o ato do MPL, se tinha as faixas do MPL. Ela disse que sim mas não confiei muito. Resolvemos ir ver.
[A partir daqui todos os fatos são “estranhos”. Bem estranhos.]
O clima no centro era muito tenso quando chegamos lá. Em nenhum dos outros lugares estava tão tenso. Tudo muito esquisito sem sabermos bem o quê. Os moradores de rua não estavam como quem está em suas casas. Os moradores de rua estavam atentos, em cantos, em grupos. Poucos dormiam. Parecia noite de operação especial da PM (quem frequenta de verdade a cidade de São Paulo, e não apenas o próprio bairro, sabe bem o que é isso entre os moradores de rua).
Só que era ainda mais estranho: não havia polícia. Não havia polícia no centro de São Paulo à noite. No meio de toda essa onda. Não havia polícia alguma. Nadinha de nada, em lugar nenhum.
Na Sé, descobrimos mais ou menos o caminho e fomos mais ou menos andando perto de outras pessoas. Um grupo de franciscanos estava andando perto de nós, também. Vimos uma fumaça preta. Fogo. MUITO fogo. Muito alto. O centro em chamas.
Tentamos chegar mais perto e ver. Havia pessoas trepadas em construções com latas de spray enquanto outros bradavam em volta daquela coisa queimando que não conseguíamos identificar. Outro colchão? Os mesmos que deixaram o colchão queimando na Jandaia? Mas quem eram eles?
De repente algumas pessoas gritaram e nós,mais outros e os franciscanos, corremos achando que talvez o choque estaria avançando. Afinal de contas, era óbvio que a polícia iria descer o cacete em quem tinha levantado aquele fogaréu (aliás, será q ela só tinha visto agora, que estava daquele tamanho todo?). Só que não.
Na corrida descobrimos que era a equipe da TV Record. Estavam fugindo do local - a multidão indo pra cima deles - depois de terem o carro da reportagem queimado. Não, não era um colchão. Era o carro de reportagem de uma rede de televisão. O olhar no rosto da repórter me comoveu. Ela, como nós, não conseguia encontrar muito sentido em tudo que estava acontecendo. Ao lado de onde conversávamos, uns quatro policiais militares. Parados. Assistindo o fogo, a equipe sendo perseguida… Resolvemos dar no pé que bobos nós não somos. Tinha algo muito, mas muito errado (e estranho) ali.
Voltamos andando bem rápido para a Sé, onde os moradores de rua continuavam alertas, e os franciscanos tentavam recolher pertences caídos pelo chão na fuga e se organizarem novamente para dar continuidade a sua missão. Nós não fomos tão bravos e decidimos voltar para nossas casas.

7. Prelúdio de um… golpe?

No metrô um aviso: as estações de trem estavam fechadas. É, pois é, aquela coisa que havíamos falado antes e tal. Mal havíamos chegado em casa, porém, uma conhecida posta no facebook que um amigo não conseguiu chegar em lugar nenhum porque algumas pessoas invadiram os trilhos da CPTM e várias estações ficaram paradas, fechadas. Não era caos “normal” da CPTM, nem problemas “técnicos” como a moça anunciava. Era de propósito. Seriam os mesmos do colchão, do carro da Record?
Lemos, em seguida, em redes sociais, que havia pessoas saqueando lojas e destruindo bancos no centro. Sabíamos que eram o mesmos. Recebi um relato de que uma ocupação de sem-teto foi alvo de tentativa (?) de incêndio. Naquele momento sabíamos que, quem quer que estivesse por trás do “caos” no centro, da depredação de ônibus na frente do Palácio dos Bandeirantes no dia anterior, de tentativas de criar caos na prefeitura, etc. não era o MPL. Também sabíamos que não era nenhum grupo de esquerda: gente de esquerda não quer exterminar sem-teto. Esse plano é de outro grupo político, esse que manteve a PM funcionando nos últimos 20 anos com a mesma estrutura da época da ditadura militar.
Algum tempo depois, mais uma notícia: em Belo Horizonte, onde já se fala de chamar a Força Nacional e onde os protestos foram violentíssimos na segunda-feira, havia ocorrido a mesma coisa. Depredação total do centro da cidade, sem nenhum policial por perto. Nenhunzinho. Muito estranho.
Nessa hora eu já estava convencida de que estamos diante de uma tentativa muito séria de golpe, instauração de estado de exceção, ou algo do tipo. Muito séria. Muito, muito, muito séria. Postei algumas coisas no facebook, vi que havia pessoas compartilhando da minha sensação. Sobretudo quem havia ido às ruas no dia de hoje.
Um pouquinho depois, outra notícia: a nova embaixadora dos EUA no Brasil é a mesma embaixadora que estava trabalhando no Paraguai quando deram um golpe de estado em Fernando Lugo.
Me perguntaram e eu não sei responder qual golpe, nem por que. Mas se o debate pela desmilitarização da polícia e pelo fim da PM parece que finalmente havia irrompido pelos portões da USP, esse seria um ótimo motivo. Nem sempre um golpe é um golpe de Estado. Em 1989 vivemos um golpe midiático de opinião pública, por exemplo. Pode ser que estejamos diante de outro. Essa é a impressão que, ligando esses pontos, eu tenho.
Já vieram me falar que supor golpe “desmobiliza” as pessoas, que ficam em casa com medo. De forma alguma. Um “golpe” não são exércitos adentrando a cidade. Não necessariamente. Um “golpe” pode estar baseado na ideia errônea de que devemos apoiar todo e qualquer tipo de indignação, apenas porque “o povo na rua é tão bonito!”.
Curiosamente, quando falei sobre a manifestação do dia 13 com meus alunos, no dia 14, vários deles me perguntaram se havia chances de golpes militares, tomadas de poder, novas ditaduras. A minha resposta foi apenas uma, que ainda sustento sobre este possível golpe de opinião pública/mídia: em toda e qualquer tentativa de golpe, o que faz com que ela seja ou não bem-sucedida é a resposta popular ao ataque. Em 1964, a resposta popular foi o apoio e passamos a viver numa ditadura. Nos anos 2000, a reposta do povo venezuelano à tentativa de golpe em Chávez foi a de rechaço, e a democracia foi restabelecida.
O ponto é que depende de nós. Depende de estarmos nas ruas apoiando as bandeiras certas (e há pessoas se mobilizando para divulgar em tempo real, de maneira eficaz, onde está o ato contra o aumento da passagem, porque já não podemos dizer que é apenas “um” movimento, como fez Haddad em sua entrevista coletiva). Depende de nos recusarmos a comprar toda e qualquer informação. Depende de levantarmos e irmos ver com nossos próprios olhos o que está acontecendo.

[update: escrevi um pouco melhor sobre como eu acho que esse “golpe” continua se desenhando; somando novas peças ao quebra-cabeças. leia aqui se interessar]

Se essa sequencia de fatos faz sentido pra você, por favor leia e repasse o papel. Faça uma cópia. Guarde. Compartilhe. Só peço o cuidado de compartilharem sempre integralmente. Qualquer pessoa mal-intencionada pode usar coisas que eu disse para outros fins. Não quero isso.
Quero apenas que vocês sigam minha linha de raciocínio e me digam: estamos mesmo diante da possibilidade iminente de um golpe?
Estou louca?
Espero sinceramente que sim. Mas acho que não.https://medium.com/primavera-brasileira/94811bfe0564

DEPOIMENTO DE LUCCA MOURA revelando mais uma prova da gangue de Cabral

Fui ameaçado de morte .
Ao final do protesto de ontem(04/07/2013 ) na rua do Governador Sérgio Cabral eu e Lucca Lasmar de Campos que havíamos ido fotografar ,fomos perseguidos por um dos famosos infiltrados , EDUARDO OLIVEIRA(que está dando as mãos para o Cabral ) ,que já havia tentado se infiltrar no movimento Ocupa Delfim Moreira e que foi um dos convocados para a falsa reunião com falsos manifestantes no Palácio da Guanabara.
Eduardo foi expulso da manifestação ontem .
Na hora que o tumulto começou ,eu estava indo embora ,quan do vi Eduardo Oliveira numa moto atras da barreira de escudos na rua seguinte a do Cabral . Tirei 2 ou 3 fotos dele . Quando ele nos viu , gritou em tom ameaçador para ficarmos onde estávamos e parar de tirar foto . Em seguida acelerou em nossa direção . Corremos em pânico por 3 quarteirões chamando a atenção das pessoas que estavam no Bar Veloso ,BB lanches e Pizzaria Guanabara.
Ele nos perseguiu com sua moto na contra mão e nas calçadas , e nos cercou no BB lanches.
Voltamos a correr , nessa hora eu e o Lucca nos afastamos , e ele foi atras de mim , disse que caso eu não parasse eu morreria. Continuei correndo até ele perceber que a minha câmera não estava mais comigo e sim com o Lucca Lasmar ,passando então a persegui-lo pela Ataulfo de Paiva . Seu garupa conseguiu segurar o Lucca Lasmar e o Eduardo Oliveira saltou de sua moto e retirou a câmera dele e em tom intimidador dizia que o Lucca Lasmar nao sabia quem era ele.
Ontem, após o roubo e a ameaça, fomos com nossas famílias registrar a ocorrência na 14 Delegacia de Policia ,apoiados por advogados dos Direitos Humanos, além dos nossos.
Hoje após sair em varias paginas na internet , ele e seu advogado foram devolver minha câmera na 14 no Leblon,alegando o absurdo de que ele ,Eduardo Oliveira, se sentiu ameaçado por nos dois .

A pergunta é : Como um sujeito que se sente ameaçado,persegue por 3 quarteirões 2 garotos gritando em pânico ?

Lucca Moura Miranda,
Fotografo.

Eduardo Oliveira alega que eu fotografei a placa de sua moto . Minha câmera já foi periciada e nenhuma foto de placa foi encontrada...

Video do Eduardo Oliveira falando com chefe se segurança do Governador Sérgio Cabral

http://www.youtube.com/watch?v=LQKlGuxUTjc

http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/manifestante-recebido-por-sergio-cabral-e-acusado-de-roubar-camera-em-protesto

 

Leonardo Boff

Texto de Leonardo Boff.

Contra as tramóias da direita: sustentar a Dilma Roussef

07/07/2013
É notório que a direita brasileira especialmente aquela articulação de forças que sempre ocupou o poder de Estado e o tratou como propriedade privada (patrimonialismo), apoiada pela midia privada e familiar, estão se aproveitando das manifestações massivas nas ruas para manipular esta energia a seu favor. A estratégia e fazer sangrar mais e mais a Presidenta Dilma e desmoralizar o PT e assim criar uma atmosfera que lhes permite voltar ao lugar que por via democrática perderam.
Se por um lado não podemos nos privar de críticas ao governo do PT (e voltaremos ao tema), mas críticas construtivas, por outro, não podemos ingenuamente permitir que as transformações politico-sociais alcançadas nos últimos 10 anos sejam desmoralizadas e, se puderem, desmontadas por parte das elites conservadoras. Estas visam a ganhar o imaginário dos manifestantes para a sua causa que é inimiga de uma democracia participativa de cariz popular.
Seria grande irresponsabilidade e vergonhosa traição de nossa parte, entregar à velha e apodrecida classe política aquilo que por dezenas de anos  temos construido, com tantas oposições: um novo sujeito histórico,  o PT e partidos populares, com a inserção  na sociedade de milhões de brasileiros. Esta classe se mostra agora feliz com a possibilidade de atuar sem máscara e mostrando suas intenções antes ocultas: finalmente, pensa, temos chance de voltar e de colocar esse povo todo que reclama reformas, no lugar que sempre lhe competiu historicamente: na periferia, na ignorância e no silenciamento. Aí não incomoda nem cria caos na ordem que por séculos construimos mas que, se bem olhrmos, é ordem na desordem ético-social.
Esta pretensão se liga a algo anterior e que fez história. É sabido que com a vitória do capitalismo sobre o socialismo estatal  do Leste europeu em 1989, o Presidente Reagan e a primeira ministra Tatscher inauguraram uma campanha mundial de desmoralização do Estado, tido como ineficiente e da política como empecilho aos negócios das grandes corporações globalizadas e à lógica da acumulação capitalista. Com isso visava-se a chegar ao Estado mínimo, debilitar a sociedade civil e abrir amplo espaço às privatizações e ao domínio do mercado, até conseguir a passagem de uma sociedade com mercado para uma sociedade de puro mercado no qual tudo, mas tudo mesmo, da religião ao sexo, vira mercadoria. E conseguiram. O Brasil sob a hegemonia do PSDB se alinhou ao que se achava o marco mais moderno e eficaz da política mundial. Protagonizou vasta privatização de bens públicos que foram maléficos ao interesse geral.
Que isso foi uma desgraça mundial se comprova pelo fosso abissal que se estabeleceu entre os poucos que dominam os capitais e as finanças e a grandes maiorias da humanidade. Sacrifica-se um povo inteiro como a Grécia, sem qualquer consideração, no altar do mercado e da voracidade dos bancos. O mesmo poderá acontecer com Portugal, com a Espanha e com a Itália.
A crise econômico-financeira de 2008 instaurada no coração dos países centrais que inventaram esta perversidade social, foi consequência deste tipo de opção política. Foram os Estados que tanto combateram que os salvaram da completa falência, produzida por suas medidas montadas sobre a mentira e a ganância (greed is good), como não se cansa de acusar o prêmio Nobel de economia Paul Krugman. Para ele, estes corifeus das finanças especulativas deveriam estar todos na cadeia como criminosos. Mas continuam aí faceiros e rindo.
Então, se devemos criticar  a nossa classe política por ser corrupta e o Estado por ser ainda, em grande parte, refém da macro-economia neoliberal, devemos fazê-lo com critério e senso de medida. Caso contrário, levamos água ao moinho da direita. Esta se aproveita desta crítica, não para melhorar a sociedade em benefício do povo que grita na rua, mas para resgatar seu antigo poder político especialmente, aquele ligado ao poder de Estado a partir do qual garantia seu enriquecimento fácil. Especialmente a mídia privada e familiar, cujos nomes não precisam ser citados, está empenhada fevorosamente neste empreitada de volta ao  velho status quo.
Por isso, as demonstrações devem continuar na rua contra as tramóias da direita. Precisam estar atentas a esta infiltração que visa a mudar o rumo das manifestações. Elas invocam a segurança pública e a ordem a ser estabelecida. Quem sabe, até sonham com a volta do braço armado para limpar as  ruas.
Dai, repetimos, cabe reforçar o governo de Dilma, cobrar-lhe, sim,  reformas políticas profundas, evitar a histórica conciliação entre as forças em tensão e o oposição para juntas novamente esvaziar o clamor das ruas e manterem um status quo que prolonga  benefíciois compartilhados.
Inteligentemente sugeriu o analista politico Jeferson Miolo em Carta Maior (07/7/2013):”Há uma grave urgência política no ar. A disputa real que se trava nesse momento é pelo destino da sétima economia mundial e pelo direcionamento de suas fantásticas riquezas para a orgia financeira neoliberal. Os atores da direita estão bem posicionados institucionalmente e politicamente…A possibilidade de reversão das tendências está nas ruas, se soubermos canalizar sua enorme energia mobilizadora. Por que não instalar em todas as cidades do país aulas públicas, espaços de deliberação pública e de participação direta para construir com o povo propostas sobre a realidade nacional, o plebiscito, o sistema político, a taxação das grandes fortunas e do capital, a progressividade tributária, a pluralidade dos meios de comunicação, aborto, união homoafetiva, sustentabilidade social, ambiental e cultural, reforma urbana, reforma republicana do Estado e tantas outras demandas históricas do povo brasileiro, para assim apoiar e influir nas políticas do governo Dilma”?
Desta forma se enfrentarão as articulações da direita e se poderá com mais força reclamar reformas políticas de base que vão na direção de atender a infra-estrutura reclamada pelo povo nas ruas: melhor educação, melhores hospitais públicos, melhor transporte coletivo e menos violência na cidade e no campo.
Leonardo Boff não é filiado ao PT, é teólogo e escritor, da Comissão da Carta da Terra

sábado, 7 de abril de 2012

Raul Seixas, o início o fim e o meio

Fui ver o documentário do Walter Carvalho sobre o Raul Seixas e o que mais me marcou foi ele dizer que não buscava passar verdades absolutas, mas sim abrir as portas para que as verdades individuais fossem encontradas. Lembrei de Jim Morrisson e senti o quanto o trabalho de entrar por essa porta é árduo. Mais ainda trilhar o caminho que existe lá dentro, indo até o fim, sé é que há um fim! ########## Sem dúvida a mais infeliz decisão do filme foi escolher Caetano Veloso para dizer a última frase (Raul não morreu). Nada contra Caetano e contra a frase dita. Sou fã de Caetano e concordo com a frase, mas algo me diz que Raul não ficaria feliz com essa escolha.

sábado, 25 de junho de 2011

Pela vontade de cantar

Passei o dia cantando e hoje me deparei agora à noite com esse texto, reproduzo-o, para que me inspire e quem quer que tenha essa vontade louca no peito, tantas vezez reprimida.

"Vamos para os pássaros pois eles são os únicos que restaram no mundo que ainda estão cantando. O homem deixou de cantar há muito tempo. Agora só os profissionais cantam. Você já viu entre os pássaros algum cantor profissional... músicos profissionais...? Pássaros simplesmente cantam da pura alegria deles."

Texto do Osho, meu querido, reluto, mas sempre encontro alento em suas palavras...

Midnigth in Paris

Tirado da crítica do filme Meia noite em Paris, do Woody Allen, no site Omelete, visto esse fim de semana:

"Mais importante, tanto A Rosa Púrpura do Cairo quanto Meia-Noite em Paris defendem com humor e melancolia que não se deve abdicar da vida em nome da arte - afinal, a arte mais elevada é aquela que nos ajuda a entender a vida"

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Sobre 2012 - Achei relevante!

Os maias, como os egípcios, são descendentes diretos dos sobreviventes de Atlântida, mas sobre eles ainda sabemos muito pouco se comparado à grande quantidade de informação que esse fabuloso povo pode ter nos deixado. Não se sabe até hoje o motivo do desaparecimento repentino dos maias na América, eram centenas de milhares de habitantes vivendo em uma metrópole da época. Existem inúmeras teorias sobre esse desaparecimento em massa, mas nenhuma se aproxima de uma conclusão plausível. Particularmente, acreditamos que esse povo, em uma certa fase de seu desenvolvimento e merecimento, observou um processo de ascensão coletiva e seu desaparecimento repentino está totalmente relacionado a isso. Os segredos e as poucas escritas encontrados até hoje estão sendo decifrados pelos arqueólogos, principalmente no México. Os maias foram excepcionais astrônomos e mapearam as fases e os cursos de diversos corpos celestes, especialmente da Lua e de Vênus. Muitos de seus templos tinham janelas e miras demarcatórias (e outros aparatos) para acompanhar e medir o progresso das rotas dos objetos observados no céu. Templos arredondados, quase sempre relacionados com Kukulcán, são observatórios celestes extraordinários. Em vários templos foram encontradas marcações de miras indicando que ali foram feitas observações astronômicas. O sistema de escrita maia (geralmente chamada hieroglífica por uma vaga semelhança com a escrita do antigo Egito) era uma combinação de símbolos fonéticos e ideogramas. É o único sistema de escrita do novo mundo pré-colombiano que podia representar completamente o idioma falado no mesmo grau de eficiência que o idioma escrito no velho mundo.

Decifrar as escritas maias tem sido uma tarefa longa e trabalhosa, um processo árduo que exige muita dedicação dos estudiosos. Algumas partes foram decifradas no final do século XIX e início do século XX (em sua maioria, partes relacionadas com números, calendário e astronomia), mas os maiores avanços se fizeram nas décadas de 1960 e 1970, e se aceleraram daí em diante. Atualmente, a maioria dos textos maias pode ser lida quase por completo em seu idioma original. Lamentavelmente, os sacerdotes espanhóis, em sua luta pela conversão religiosa, ordenaram a queima de todos os livros maias logo após a conquista. Assim, a maioria das inscrições que sobreviveram é a que foi gravada em pedra; grande parte estava situada em cidades já abandonadas quando os espanhóis chegaram. Os livros maias normalmente tinham páginas semelhantes a um cartão, feitas de um tecido sobre o qual aplicavam uma película de cal branca e assim pintavam os caracteres e desenhavam suas ilustrações. Os cartões ou páginas atavam-se entre si pelas laterais de maneira a formar uma longa fita que era dobrada em ziguezague para guardar e, sempre que desejavam, eles desdobravam para a leitura. Atualmente restam apenas três desses livros e algumas outras páginas de um quarto. Frequentemente são encontrados, nas escavações arqueológicas, torrões retangulares de gesso que parecem ser restos do que fora um livro depois da decomposição do material orgânico.

Nosso conhecimento sobre os pensamentos maias representa somente uma minúscula fração do panorama completo que poderemos ainda descobrir, em vista dos milhares de livros que formaram toda a extensão do conhecimento maia e seus rituais.

A grande importância dada pelos maias à medição do tempo decorre da concepção do tempo e do espaço; em verdade, para eles, o tempo era uma só coisa, que flui não linearmente, como tratado na convenção europeia ocidental, mas sim circularmente, isto é, em ciclos repetitivos. O conceito chama-se Najt e é representado graficamente por uma espiral. Os maias acreditavam que, conhecendo o passado e transportando as ocorrências para idêntico dia do ciclo futuro, os acontecimentos basicamente se repetiriam, podendo-se, assim, prever o futuro e exercer poder sobre ele por meio do presente.

Por essa razão, a adivinhação e a clarividência eram a mais importante função da religião dos maias. Tanto é assim que a palavra maia usada para designar seus sacerdotes tem origem na expressão "guardião dos dias".

Para os maias, a energia move-se desde o centro da Galáxia de Alcion, nas Plêiades, até o nosso Sol, que a irradiará para todo o Sistema Solar. A Lua, Vênus, Marte, Mercúrio principalmente e os outros planetas refletem para a Terra essa energia. A quantidade que refletem depende da localização deles nas suas órbitas em redor do Sol e da posição do nosso planeta. Essa energia regula desde as marés até as fases de crescimento de todas as coisas no planeta. Ela é aceita por todos os povos como a força vital, foi descrita por Parcelso e chamada de Evestrum. Os egípcios, por sua vez, a chamaram de Kal; os gregos, de Pneuma; os hebreus, de Ruan; os hindus, de Prana; os japoneses, de Ki; os Chineses, de Chi; e os maias, de Puah.

O calendário maia com ciclo equivalente a um ano solar era chamado Haab e tinha ordinariamente 18 meses de 20 dias cada; seu uso era mais afeto às atividades agrícolas, notadamente na prescrição das datas de plantio, colheita, tratos culturais e previsão dos fenômenos meteorológicos. Era o calendário das coisas e das plantas. Já o calendário Tzolk'in, que possuía 13 meses de 20 dias, com ciclo completo de 260 dias, era usado para as atividades religiosas. Em sua função se marcavam as cerimônias religiosas, faziase a adivinhação das pessoas e se encontravam as datas propícias para seus atos civis.

Assim que nascia uma criança, pelo registro akáshico* os maias a apresentavam aos sacerdotes que, pelo dia do nascimento, adivinhavam a futura personalidade da criança, seus traços marcantes, suas propensões, habilidades e dificuldades, analogamente ao horóscopo mesopotâmico, e encaminhavam essa criança para os estudos mais apropriados, criando seres extraordinários e alinhados com suas aptidões e seus propósitos pessoais. Esse conhecimentos foram perdidos no tempo, como também os conhecimentos reais sobre a verdadeira Kaballah egípcia de Tehuti (Hermes), fonte primária da Kaballah judaica, capaz de prever pela data de nascimento todos os ciclos positivos e negativos de uma pessoa durante sua vida na Terra. Por meio do oráculo egípcio verdadeiro de Tehuti, é possível mapear facilmente suas aptidões, seus talentos e as heranças genéticas e espirituais que as carregam na sua essência consciencial. Se o mundo ocidental resgatasse esse conhecimento, certamente muitos contratempos e infortúnios seriam evitados e grandes gênios e mentes brilhantes seriam despertados ainda na infância.

Estudiosos defendem que a observação da repetição cíclica das estações do ano e seus eventos climáticos, dos ciclos vegetativos e reprodutivos das plantas e dos animais, sincronizada à repetição do curso dos astros na abóbada celeste, foi o que inspirou os maias na criação de seus calendários.

É reconhecido que muito da matemática e astronomia dos maias se desenvolveu sob a necessidade de sistematizar os calendários com os principais eventos cósmicos.

As pessoas que possuem algum tipo de clarividência na verdade estão acessando esses grandes registros virtuais, que por sua vez vão se moldando conforme a crença e o foco de atenção de cada um. Podemos dizer que esse grande registro é realmente um imenso programa que vai se modificando e se construindo a todo instante. Por isso é muito importante entender que o futuro não está pronto e esperando por você. Previsões, clarividências e adivinhações são meras leituras de um mundo que se apresenta no presente. Se mudar o presente, automaticamente mudará o futuro. Nada é imposto, e sim proposto. Algumas pessoas declaram que já entraram nos registros akáshicos por meio de projeções conscientes e lúcidas; dizem terem lá encontrado algo parecido com uma grande biblioteca, com livros verdadeiros. O passado, o presente e o futuro estavam registrados, como textos, nesses livros. Algumas pessoas até dizem que já leram os registros, depois entraram neles e os experienciaram em primeira mão. O registro akáshico pessoal de cada um pode ser acessado por terapeutas e clarividentes por meio da descrição do nome completo e da data de nascimento.

O mês de 20 dias é natural e adequado à cultura maia, já que a sua matemática usava a numeração na base vinte, que corresponde à soma dos dedos humanos das mãos e dos pés. Não é por outra razão que a cada katum (período de 20 anos), data auspiciosa como nossa década, os maias erigiam uma estela, monumento lítico belissimamente decorado, no qual registravam as datas e os principais eventos que poderiam ser interpretados no futuro.

Como qualquer outra civilização antiga, os maias sacralizavam os conhecimentos de astronomia, matemática e escrita, sendo estes função dos sacerdotes e letrados, cujos registros se cristalizaram no sistema de calendários, desde muito cedo aperfeiçoados.

Se a duração do ciclo completo do haab (365 dias + 1/5) era demarcada ao compasso do ano solar, a duração do ciclo completo do Tzolk'in (260 dias) corresponde à duração de um ciclo biológico humano desde a concepção até o nascimento.

Por isso, o haab regia a agricultura e as coisas, e o tzolk'in, a vida das pessoas. Os maias desenvolveram independentemente o conceito de zero; de fato, parece que estiveram usando o conceito muitos séculos antes do Velho Mundo, e usavam um sistema de numeração de base 20.

As inscrições mostram-nos, em certas ocasiões, que trabalhavam com somas de até centena de milhões. Produziram observações astronômicas extremamente precisas; seus diagramas de movimentos da Lua e dos planetas, se não iguais, são superiores aos de qualquer outra civilização que tenha trabalhado sem instrumentos óticos. Ao encontro dessa civilização com os conquistadores espanhóis, o sistema de calendários dos maias já era estável e preciso, notavelmente superior ao calendário gregoriano.

Nos séculos VIII e IX, a cultura maia clássica entrou em decadência, abandonando a maioria das grandes cidades e as terras baixas centrais. A guerra, o esgotamento das terras agrícolas e a seca, ou ainda a combinação desses fatores, são frequentemente sugeridos como os motivos da decadência.

Os estados maias pós-clássicos também continuaram prosperando nos altiplanos do sul. Um dos reinos maias dessa área, Quiché, é o responsável pelo mais amplo e famoso trabalho de historiografia e mitologia maia, o Popol Vuh, fornecendo-lhes preceitos e presságios.

Os maias falavam sobre o final do medo. Dizem que o nosso mundo de ódio e materialismo terminará em 2012. Nesse dia, a humanidade deverá escolher entre desaparecer do Planeta como espécie pensante que ameaça destruí-lo ou evoluir para a integração harmônica com todo o Universo. Compreendendo que tudo está vivo e consciente, e que somos partes desse todo, podemos existir em uma Era de luz. Diziam que a partir de 1999 restariam 13 anos, somente 13 anos para realizarmos as mudanças de consciência e atitudes de que eles nos falam, para que possamos nos desviar do caminho do mal para outro que abra nossas consciências e mentes à integração com o Universo. Os maias sabiam que o Sol, ao qual chamavam "Kinich-Ahau", é um ser vivo que respira e a cada determinado período se tempo sincroniza com o enorme organismo que existe (Alcion); que, ao receber uma manifestação de luz do centro da Galáxia, brilha mais intensamente e produz em sua superfície o que os cientistas chamam de erupções solares e mudanças magnéticas. Eles dizem que isso acontece a cada 5.125 anos e que a Terra se vê afetada pelas mudanças do Sol mediante o deslocamento do seu eixo de rotação. Para os maias, o processo universal, como a respiração da Galáxia, é cíclico e nunca muda.

O que muda é a consciência do homem, que passa por seu intermédio em um processo sempre em direção à perfeição. Com base em suas observações, os maias diziam que a partir da data inicial de sua civilização, desde o 4º Ahua, 8º Cumku, isto é, 3.113 a.C. até 5.125 anos no futuro que o Sol receberá um forte raio sincronizador proveniente do centro da Galáxia, mudando sua polaridade e produzindo uma gigantesca labareda radiante. Para esse dia, a humanidade deve estar preparada para atravessar o portal dimensional. Nesse momento, a civilização atual, baseada no medo, passará para uma vibração muito mais alta de harmonia. Só de maneira individual podemos atravessar o portal que permitirá evitar grandes desastres. Os maias asseguravam que a sua civilização era a quinta iluminada pelo Sol, o quinto grande Ciclo Solar. Que antes existiram outras quatro civilizações que foram destruídas por grandes desastres naturais. (Adâmica, Hiperbórea, Lemuriana, Atlante.) Achavam que cada civilização é apenas um degrau para ascensão da consciência coletiva da humanidade. Para os maias, no último desastre, a civilização teria sido destruída por uma grande inundação que deixou apenas alguns sobreviventes dos quais eles eram seus descendentes. Pensavam que, ao conhecer o final desses ciclos, muitos humanos se preparariam para o que viria e que graças a isso haviam conseguido conservar sobre o Planeta a espécie pensante, o ser humano. Falam sobre o "tempo do não-tempo", um período de 20 anos chamado "Katún", os últimos 20 anos desse grande ciclo de 5.125 anos, quer dizer, de 1992 até 2012. Diziam que nesse tempo manchas do vento solar cada vez mais intensas apareceriam no Sol e que, a partir de 1992, a humanidade entraria em um último período de grandes aprendizagens, de grandes mudanças. Que nossa própria conduta de depredação e contaminação do Planeta contribuiria para conscientização coletiva e nos forçaria a uma nova conduta perante o planeta. Essas mudanças acontecerão para que possamos entender como funciona o Universo e avançar em níveis superiores, deixando para trás o materialismo e nos livrando do sofrimento. Diziam que a terra despertará pelo norte e pelo poente, começando uma época de escuridão que todos nós enfrentaríamos com nossa própria conduta. Disseram que as palavras de seus sacerdotes seriam escutadas por todos nós como orientação para o despertar. Eles falavam dessa época como o tempo em que a humanidade entrará no grande salão dos espelhos, um momento de mudanças, o homem em frente a si, mesmo, para que enxergue e analise seu próprio comportamento com ele mesmo, com os demais, com a natureza e com o Planeta em que vive.

Uma época para que toda a humanidade por decisão consciente de cada um decida mudar e eliminar o medo e a falta de respeito de todas as nossas relações.

Diziam que o comportamento de toda a humanidade mudaria rapidamente a partir do eclipse solar de 11 de agosto de 1999, dia em que um anel de fogo cortou o céu; foi um eclipse sem precedentes na História pelo alinhamento em cruz cósmico com o centro da Terra de quase todos os planetas do Sistema Solar. Eles nos posicionaram quatro signos do zodíaco que são os dos quatro evangelistas, os quatro guardiões do trono que protagonizam o Apocalipse segundo São João. Além disso, a sombra que a Lua projetou sobre a Terra atravessou a Europa, passando por Kosovo, depois pelo Oriente Médio, Irã, Iraque e posteriormente se dirigindo ao Paquistão e à Índia. Sua sombra parecia prever uma área de conflitos e guerras. Os maias sustentavam que, a partir desse eclipse, o homem perderia facilmente o controle ou então alcançaria sua paz interior e tolerância, evitando os conflitos; anunciavam uma época de mudanças, que é a antessala de uma Nova Era. Diziam que a energia que recebemos do centro da galáxia aumentará e acelerará a vibração em todo o Universo para conduzir a uma maior perfeição. Isso produzirá mudanças físicas no Sol e psicológicas no ser humano. Serão transformadas as formas de relacionamento e de comunicação. Simultaneamente, mais e mais pessoas encontrarão a paz interior, aprenderão a controlar suas emoções, haverá mais respeito, serão mais tolerantes e compreensivas, encontrarão o amor e a unidade. Surgirão homens com altíssimos níveis de energia interna, pessoas com sensibilidade e poderes intuitivos para a salvação. Todos se posicionarão segundo o que são e os que conservam a harmonia entenderão isso como um processo de evolução no Universo. Os conflitos existirão, mas também darão lugar às circunstâncias de solidariedade e respeito pelo semelhante. Isso significa que o céu e o inferno se manifestarão ao mesmo tempo. Na época da mudança dos tempos, todas as opções estarão disponíveis e praticamente sem nenhuma censura; os valores morais estarão mais evidentes que nunca para que cada um se manifeste livremente como realmente é.

Devemos, então, concentrar-nos em produzir resultados positivos de nossas ações. Todos esses processos existem para que a humanidade se expanda pela Galáxia, compreendendo sua integridade fundamental com tudo o que existe.

Certamente muitas mudanças acontecerão e, nesse momento, um dos aspectos mais marcantes certamente será a nossa relação com o sistema capitalista que aí está. Desde 1995, a economia mundial não é mais dominada pelo intercâmbio de automóveis, aço, trigo e outros bens e artigos reais, mas pelo intercâmbio de dívidas, ações e títulos de crédito, quer dizer, de riqueza virtual com a qual é muito fácil especular. A especulação em torno do capital financeiro levará a uma situação econômica muito complicada. Nesse momento, quase todas as economias do mundo estarão com problemas de especulações financeiras; os salva-vidas do governo com dinheiro de bancos que se encontrarão à beira da falência. Não será o fim do capitalismo, mas o início de um novo modelo de relação comercial que virá a ser construído, pois o sistema hoje operante já está em franca transformação.

As escrituras maias dizem que em um certo momento o Sistema Solar, em seu giro cíclico, sairá da noite para entrar no amanhecer da Galáxia. Elas nos falam que, nos 13 anos (que vão de 1999 até 2012), a luz emitida desde o centro da Galáxia sincroniza todos os seres vivos e permite-lhes concordar voluntariamente com uma transformação interna que produz novas realidades. E que todos os seres humanos têm a oportunidade de mudar e romper suas limitações por meio do pensamento. Os seres humanos que voluntariamente encontrarem seu estado de paz interior, elevando sua energia vital, levando sua frequência de vibração interior do medo para o amor, poderão captar o pensamento e se expressar por seu intermédio, com isso florescendo o novo sentido. A energia adicional do raio emitido por Runacku (ou Alcion, o centro da Galáxia) ativa o código genético de origem divina nos seres humanos que estejam em alta frequência de vibração. Tal sentido ampliará a consciência de todos os seres humanos, gerando uma nova realidade individual, coletiva e universal. Uma das maiores transformações ocorrerá em nível planetário, porque todos os homens conectados entre si como um só todo darão nascimento a um novo ser na ordem galáctica.

A reintegração das consciências individuais de milhões de seres humanos despertará uma nova consciência, na qual todos entenderão que fazem parte de um mesmo organismo gigantesco. A capacidade de ler o pensamento entre os humanos revolucionará totalmente a civilização, pois desaparecerão todos os limites, a mentira será eliminada para sempre porque ninguém poderá ocultar mais nada. Iniciar-se-á uma época de transparência e de luz que não poderá ser oculta por nenhuma violência ou emoção negativa. Desaparecerão as leis e os controles externos, como a polícia e o exército, porque cada ser se fará responsável por seus atos; não será preciso implantar nenhum direito ou dever pela força. Será formado um governo mundial e harmônico, com os seres mais sábios e evoluídos do Planeta, e não existirão fronteiras nem nacionalidades. Findarão os limites impostos pela propriedade privada e o dinheiro não será mais necessário como algo que direcione a vida das pessoas, e sim seus propósitos individuais. Serão implantadas tecnologias para o controle da luz e da energia, e com elas a matéria se transformará, produzindo de maneira simples tudo o que for necessário e dando um basta à pobreza para sempre. Com a comunicação pelo pensamento, haverá um supersistema imunológico que eliminará as baixas vibrações do medo produzidas pelas enfermidades, prolongando a vida dos humanos.

A Nova Era não precisará da aprendizagem inversa, produzida pelas doenças e sofrimento que caracterizaram os últimos milhares de anos da História. A comunicação e a reintegração farão com que as experiências e lembranças individuais e os conhecimentos adquiridos sejam disponíveis sem egoísmo para todos os outros. Será como uma Internet em nível mental que multiplicará exponencialmente a velocidade das descobertas e serão criadas sinergias nunca antes imaginadas. Os julgamentos e os valores morais que mudam com o tempo serão extintos. O respeito será o elemento fundamental da cultura, transformando o indivíduo e a comunidade.As manifestações artísticas, as ocupações estéticas e as atividades recreativas comunitárias e culturais ocuparão a mente do ser humano. Milhares de anos fundamentados na separação entre os homens que adoraram um Deus que julga e castiga se transformarão para sempre. O ser humano viverá a primavera galáctica, o florescimento de uma nova realidade baseada na reintegração com o Planeta e com todos os seres humanos. Nesse momento, compreenderemos que somos parte de um único organismo gigantesco e nos conectaremos com a Terra, uns com os outros, com nosso Sol e com a Galáxia inteira. Todos os seres humanos entenderão que os reinos mineral, vegetal e animal e toda a matéria espalhada pelo Universo em todas as escalas, desde um átomo até uma Galáxia, são seres vivos com uma consciência evolutiva. Na Nova Terra, todas as relações serão baseado das na tolerância e na flexibilidade, porque o homem sentirá os outros seres como parte de si mesmo.

*Registro Akáshico: akasha é uma palavra em sânscrito que significa céu, espaço ou éter. Segundo o Hinduísmo e diversas correntes místicas, são um conjunto de conhecimentos armazenados misticamente no éter, que abrangem tudo o que ocorre, ocorreu e ocorrerá no Universo. São encontrados na zona intermediária entre os mundos astral e mental, parcialmente astral e mental, e, de certa forma, interpenetrando todos os níveis. Eles são registros de todo pensamento e evento que já ocorreram, como um enorme, infinito livro ilustrado de história mental. Os registros akáshicos também contêm probabilidades que brotam e que são criadas por acontecimentos, ações e pensamentos passados e no futuro.

"2012: A Era de Ouro"

Autores: Carlos Torres e Sueli Zanquim
Editora: Madras
Páginas: 176
Quanto: R$ 42,90
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 e no site da Livraria da Folha

sexta-feira, 15 de maio de 2009

João Moreira Salles – não fixando o olhar

(Matéria publicada na Revista Básica - Setembro de 2007)

Um documentário sobre a guerra do tráfico no Rio (“Notícias de uma Guerra Particular”), outro sobre um pianista silencioso (“Nelson Freire”), o retrato de uma campanha presidencial única na história do Brasil (“Entreatos”), um filme sobre uma grande casa e seu excêntrico mordomo (“Santiago”) e por fim uma revista bem diferente da maioria. Essas são as linhas gerais dos principais documentários de João Moreira Salles e seu mais novo empreendimento, a revista Piauí, lançada no fim de 2006.

Cineasta, editor e, periodicamente, professor (atualmente ele ministra um curso na Casa do Saber e também já integrou o quadro de professores da PUC), ele costuma produzir filmes elogiados pela crítica e premiados em festivais nacionais e internacionais.

Ultimamente, seu foco de trabalho se deslocou da telona para o jornalismo, mais especificamente para a revista mensal da qual é fundador e editor. Para ele, essa mudança é coerente. Seu campo continua sendo a não-ficção e o terreno onde busca suas histórias permanece sendo o Brasil. “Eu mesmo faço uma ou outra reportagem grande e não é substancialmente diferente do que se eu estivesse com uma câmera. O procedimento é quase o mesmo. Eu vou olhar, ver como as pessoas são, os gestos, o que elas fazem e, depois, escrever”.

Fugindo do entendimento de que um filme documentário existe para ensinar as pessoas sobre algo que elas deveriam saber, João não busca conscientizar ninguém e não acredita em mudar o mundo através do cinema. Por essa linha de documentário ele não cultiva nenhuma simpatia: “Eu faço documentário pelo documentário, ele é um fim em si e não um instrumento de engenharia social”. Sua revista segue o mesmo princípio. A Piauí não tem editorial nem colunas de opinião, apenas reportagens que buscam contar, de forma original, fatos que ocorrem no país, além de poesias, histórias em quadrinhos e bastante humor.

Seu anseio é testemunhar o que é singular, transmitindo uma história que para ele simplesmente não poderia deixar de ser registrada.

Sobre o filme “Notícias de uma Guerra Particular”, de 1999, que retrata o cotidiano de traficantes e moradores do Morro Santa Marta, em Botafogo, ele afirma: “Era um momento da história do Rio de Janeiro em que houve uma mudança de patamar de violência. Eu, Kátia (Lund, co-diretora do filme) e Waltinho (Walter Salles, irmão de João, que participou do início do filme), como moradores da cidade, nos perguntamos: ‘O que está acontecendo?’. Tínhamos que pegar uma câmera e tentar testemunhar aquilo, mas sem querer defender nenhuma tese. O filme nasce de um desejo de testemunhar”.

Um impulso parecido o levou, em 2002, a filmar a campanha política de Lula à presidência da República. “Não era o Lula em si, não eram as suas idéias... Era o fato de uma pessoa como ele, vindo de onde veio e que se projetou como líder sindical, estar ali onde ele estava. Eleger o Lula significava, inevitavelmente, uma novidade histórica. Como documentarista, você se sente desafiado. É uma coisa que só acontece uma vez”.

Apesar de filmar fatos reais e não defender opiniões, suas histórias são sempre autorais. “Eu filmo a partir do meu ponto de vista, não acredito na objetividade”. Cada vez mais, ele busca expor claramente esse fato. É o que se percebe em “Santiago”, em que a voz do documentarista está presente do início ao fim e é central dentro do filme. O ato de escolha e intervenção - que permeia qualquer documentário, mas que muitas vezes é mascarado - fica escancarado neste trabalho, que fala sobre o mordomo da casa onde João passou a infância, na Gávea, sua relação com esta mansão e, mais que tudo sobre o ato subjetivo de construção de uma obra não ficcional.

João Moreira Salles toca em questões que não se perdem com o tempo. Em toda sua obra ele fala, acima de tudo, sobre a essência humana, seja o pior ou melhor dela. No filme “Nelson Freire”, de 2003, sobre um dos maiores pianistas brasileiros da História, por exemplo, ele fala principalmente sobre a ordem, a beleza e a importância do silêncio. Em “Santiago”, além da história factual da vida de seu antigo mordomo, ele trata das relações estabelecidas entre empregado e empregador e das relações de poder; entre muitos outros temas subjetivos, que nunca chegam ao espectador como questões fechadas, dadas como verdades, e sim, como uma maneira de enxergar a realidade.

A forma particular do olhar desse profissional que pensou, alimentou e fez todos esses filmes foi construído ao longo de um percurso próprio, não muito diferente da maioria, nem muito igual.

João nasceu numa família influente e culta. Seu pai foi embaixador, ministro e fundador do Unibanco. Eles moravam numa casa na Gávea, hoje o Instituto Moreira Salles, centro de referência em música e fotografia. “Eu cresci na ditadura. Era um período em que as pessoas tinham medo. Não só aquelas que lutavam contra os militares, mas também aquelas que podiam ser alvo de ações da esquerda. Pelo fato de meu pai ser banqueiro, imaginava-se que a minha família poderia sofrer algum ato de violência, ainda que ele tivesse sido ministro do João Goulart. Eu tive uma infância bastante protegida”.

Até o meio da adolescência estudou na Escola Suíça, em Santa Teresa. A escola tinha poucos alunos e ele poucos amigos. Sua rotina dessa época se resumia a casa, ao colégio e ao percurso longo que fazia entre uma e outra, todos os dias.

Somente quando, aos 16 anos, mudou de escola e foi para o São Vicente de Paulo, no Cosme Velho, ele passou a vivenciar mais intensamente a cidade e a ter uma vida como qualquer adolescente. “Aí sim, eu comecei a freqüentar Ipanema e Leblon. Descobri amigos, descobri uma cidade que você vê ao ar livre e passei a ter um ponto na praia onde eu sabia que encontraria as pessoas. No meu caso, era ali em frente ao Country, onde gostava de jogar vôlei até o fim do dia”. Hoje em dia, sua relação com a cidade ao ar livre se mantém, João diz aproveitar o Rio correndo na orla ou na areia de três a quatro vezes por semana e nadando no mar ou subindo até Vista Chinesa de bicicleta, nos fins-de-semana. “Eu nunca me inscrevi numa academia. Tudo que eu preciso está do lado de fora; está no Rio. Eu uso muito a cidade, mas à noite eu fico mais em casa”. João é casado, tem um filho de dezesseis anos e mora no Leblon.

Ele estudou Economia na PUC e sentia-se muito à vontade no que ele considera o mais próximo de um verdadeiro campus universitário. O curso lhe deu disciplina de estudo e base fundamental de conhecimento: “Foi muito importante esse curso para mim, fiz bons amigos e tinha a sensação de estar no lugar certo pro Brasil naquela época. Mas por outro lado, apesar de ser bom aluno, eu sabia que não seria economista”.

Depois de formado a questão se abriu: se não seguiria Economia, o que faria? Foi quando o irmão Walter Salles, diretor de cinema, o chamou para ajudá-lo em um documentário sobre o Japão. João aceitou e a partir daí, se caminho como cineasta foi sendo traçado: “Foi uma coisa acidental, nunca foi uma vocação, um ‘eu só quero fazer cinema!’”.

O direcionamento atual para o jornalismo então se justifica. O foco de João Moreira Salles é a observação, o meio com que fará isso, não é o principal: “Para mim essa migração não é tão extraordinária assim como as pessoas pensam. Deixar o cinema por um tempo para mim não é um problema. Eu nunca estive no cinema com os dois pés no chão. Eu estive lá sempre hesitando, pensando se estava no lugar certo. Aqui (na revista) eu me sinto mais à vontade”.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Dia Internacional da Mulher

No dia internacional da mulher achei por certo pensar sobre a questão, afinal ainda sofremos, ainda lutamos e ainda precisamos refletir sobre nossa condição e nossa posição na sociedade. As mudanças chegam a nos atropelar de tão velozes e se por um lado alcançamos conquistas e liberdades, por outro novas amarras nos são colocadas.

Entre todos os eventos sobre o assunto que aconteceriam na cidade, o que me chamou mais a atenção foi o realizado no Museu da República, onde arte, direito e comportamento estariam em pauta.

Este evento, que aconteceu nos jardins do museu e conta com uma exposição aberta ao público, faz parte de um projeto comemorativo dos 20 anos da Constituição de 1988 e celebra a participação popular neste capítulo tão importante da nossa história.

- Esse evento é muito importante para revermos 1988, rediscutirmos e reavaliarmos o que conquistamos e o que ainda precisamos conquistar. Optamos por fazer todos os debates ao ar livre para termos mais ouvintes, mais participantes, pois nosso objetivo é trocar com as pessoas, gerando envolvimento e participação sobre diversos assuntos – explica Maria Helena Versiani, curadora do evento.

Mas no domingo, dia oito, o foco da discussão estava apontado para a mulher e não somente a mulher como gênero, mas principalmente a mulher como conquista.

A partir de um movimento de mulheres, conhecido como Lobby do Batom, foi conquistado, em 1988, na Constituição, o direito de igualdade e direitos entre homens e mulheres. Mas o que essa nova legislação significou em termos práticos? Quais mudanças ela efetivamente imprimiu nas mulheres e nas suas relações com os homens e com a sociedade?

Através de debate, exposição de graffiti, performance artística e filme sobre a questão legal do aborto, as inquietações e conquistas da mulher atual foram se destrinchando.

A primeira etapa do evento foi a apresentação ao vivo da graffiteira Panmela Castro, mais conhecida como Anarkia, que pintou um quadro com a figura de uma mulher e dizeres em defesa da causa. Anarkia é integrante do projeto "Graffiteiras Pela Lei Maria da Penha", que promove na Baixada Fluminense, debates sobre a lei que pune agressões contra as mulheres.

- O graffiti é importante por que é visto por todo mundo e se for usado como um meio para comunicar assuntos polêmicos, é muito eficiente – argumenta Anarkia.

Outra atração do evento foi a performance "Procurando Eva na Cidade" da atriz e bailarina Andréa Maciel, que percorreu as ruas do Catete com uma saia de papelão colorida e no final do evento se apresentou no palco, dialogando com o público e trazendo à tona aspectos da sensualidade feminina.

- A arte vem para expandir o conceito. É uma forma de abordar o tema de uma outra forma, sensibilizando o público – argumenta a curadora Maria Helena.

O debate com Schuma Schumaher ativista feminista que fez parte do Lobby do Batom ; Eliane Potiguara, fundadora e diretora da REDE GRUMIN de Mulheres indígenas e Miriam Goldenberg antropóloga, escritora e pesquisadora na área de gênero, desvio, corpo, sexualidade e novas conjugalidades, abordou dezenas de aspectos relevantes sobre a mulher nos dias de hoje: suas lutas, seus anseios e suas vitórias.

Schuma fez um histórico sobre as conquistas da mulher, desde a criação do dia Internacional da Mulher em 1910, em Copenhagen, no II Encontro de Mulheres Socialistas, até a conquista das feministas na constituição de 1988 passando pela conquista, em 1932, do direito de votar e pela segunda onda do feminismo na década de 70, que lutou bravamente pelo fim do patriarcalismo e pelo direito ao prazer.

- O feminismo conseguiu fazer uma luta silenciosa que não derramou uma só gota de sangue – avalia Schuma.

Eliane Potiguara revelou em números as dificuldades das mulheres indígenas, que são duplamente uma minoria e revelou como o preconceito e o desrespeito vem destruindo a essência do povo indígena durante séculos.

- Ser indígena hoje já não é ficar nu e andar na floresta. Ser indígena é ter na essência a ética que vem dos nossos ancestrais e isso nós não podemos perder – explica Eliane.

Miriam Goldenberg fez uma palestra bastante envolvente e abordou a questão do comportamento da mulher brasileira. Falou sobre a importância de Leila Diniz e sua revolução comportamental - uma revolução que foi a sua própria vida.

Miriam revelou também o quanto as mulheres brasileiras se importam e se preocupam com a questão do envelhecimento e como elas medem a sua felicidade pela conquista de um casamento estável quando chegam aos cinqüenta anos.

Ela comparou o comportamento das brasileiras com o das alemãs que se consideram no auge aos cinqüenta por conta da maturidade alcançada e pelas conquistas na carreira. As brasileiras, segundo suas pesquisas, se sentem infelizes pois já não chamam a atenção dos homens na rua e porque, se não tem um marido, dificilmente encontram um novo companheiro.

Miriam colocou, ao final, que as alemãs seriam mais felizes, pois não dependiam dos homens para se sentirem realizadas.

Não sei...

Será pedir demais querer os dois? Ter uma relação satisfatória com o universo masculino e, ao mesmo tempo, com a vida profissional?

Acho que daqui pra frente só as mulheres que conquistarem isso poderão dizer que se sentem realmente felizes. Afinal as alemãs nos influenciam e nossos costumes não são abandonados tão facilmente.

Novas batalhas para nós! Mas ser mulher é isso: mudar, lutar, amar...

quinta-feira, 12 de março de 2009

Cultura Digital, Cultura Popular e Liberdade

No último fim de semana aconteceu o 1º Festival Cultura Digital do Rio de Janeiro, no Circo Voador. Na programação, robótica, software livre, Pure Data, propriedade intelectual, pirataria, liberdade, danças populares, maculelê...

Danças populares, maculelê e cultura digital!?

Achei interessante e fui investigar a relação.

O evento não era de Cultura Digital pura e simplesmente, mas sim de Cultura Digital Livre. E isso muda muita coisa.

A Cultura Digital Livre defende e promove o uso do software livre e a ampliação infinita da circulação de informação e criação. Busca elevar ao máximo as possibilidades de acesso, autonomia e autoria de todos que estão nela inseridos. Além disso, também busca a transformação da própria sociedade e das formas de relação dentro dela.

A filosofia da Cultura Digital Livre é da meritocracia; só cresce dentro dela quem se esforça para aprender e contribuir. Toda essa liberdade, portanto, acaba por exigir conhecimento profundo das novas linguagens e tecnologias e, principalmente, envolvimento humano (mesmo que através da máquina). Você pode não pagar, mas para estar inserido, precisa contribuir.

- Na Cultura Digital Livre o importante não é o dinheiro, o importante é o mérito. Você precisa estar inserido. Qualquer um pode entrar, mas quanto menos você fizer, menos você é respeitado, menos você aprende, menos você constrói e menos você tem acesso – explica Tadzia Maya, uma das organizadoras do evento.

Por conta disso muitas iniciativas, tanto do governo, quanto da sociedade civil organizada vêm promovendo a capacitação em tecnologias da informação de jovens e adultos que vivem em áreas de exclusão. A finalidade não é só inserir essas pessoas no universo digital, mas possibilitar a contribuição desses novos agentes na elevação da capacidade tecnológica do país, já que dentro da Cultura Digital Livre todos podem e devem criar e recriar o universo já existente.

Nesse caso vai ficando mais fácil entender a relação entre Cultura Digital Livre e as culturas tradicionais, como o samba, a capoeira e o Jongo, que são construídas a partir das relações humanas, estão sempre em movimento e são baseadas na contribuição que cada um dá a elas.

- A cultura tradicional é uma cultura livre, pois sobreviveu sem nada, só através da transmissão oral. A Cultura Digital era o braço que faltava para o resgate e o fortalecimento de uma cultura ancestral – argumenta Luciane Menezes, cantora, pesquisadora e a facilitadora da oficina de danças e cantos tradicionais do evento.

A Cultura Digital Livre, portanto, se alimenta e se firma através dos valores tradicionais; e os movimentos da cultura tradicional se fortalecem com a Cultura Digital, pois encontram nela um canal aberto e democrático para se propagar e se fortalecer.

Direitos Autorais


Mas toda essa defesa por liberdade de difusão e acesso a cultura e a conteúdos diversos acaba esbarrando, inevitavelmente, na questão dos direitos autorais. A discussão sobre novas formas de licenciamento se faz, então, necessária.

- É muito importante o debate sobre cultura livre e direito autoral. Nós temos uma lei do direito autoral que é muito defasada e que criminaliza o usuário. É preciso mudar essa lei e entender que a cultura livre, que a cultura da gratuidade está emergindo – defende Ivana Bentes, professora da Escola de Comunicação da UFRJ, que participou da mesa de discussão “Ainda somos os mesmos e licenciamos como nossos pais?”, que aconteceu no primeiro dia do evento.

Para alguns esse discurso de liberdade e gratuidade não tem espaço dentro da sociedade capitalista.

- O fim da propriedade intelectual é utópico. Assim como existe a propriedade individual no capitalismo, sempre vai existir a propriedade intelectual. A partir do momento em que eu vivo das minhas criações, é claro que eu tenho que ter o direito sobre elas, assim como o marceneiro tem o direito de cobrar sobre seus produtos – defende a produtora de cinema Ana Alice de Moraes.

Mas o que certas experiências têm mostrado é que algumas vezes a liberação ao uso irrestrito de conteúdos dentro da internet, ou até mesmo fora dela, acaba por beneficiar o criador mais do que quando ele restringia o acesso à suas criações através das arcaicas leis de proteção.

É o caso apontado por outro participante da mesa, o cientista político Thiago Novaes.

- Os filmes Tropa de Elite e o Homem que Copiava que foram “lançados” de forma ilegal antes do lançamento oficial no cinema não impediram que estes obtivessem grandes bilheterias, muito pelo contrario – defende.

Outro caso é o do músico Bnegão que libera todas as suas músicas na Internet e por conta disso é ouvido em diversas partes do mundo, garantindo popularidade, venda de CD e também convites para a realização de shows. Tudo graças à participação, envolvimento e contribuição que ele faz dentro da rede. O mérito é reconhecido e ele se fortalece.

Será que em todos os casos isso aconteceria? É certo que não, mas fatos como esse demonstram que as antigas formas de lidar com a troca e o acesso à conteúdos, não garantem o retorno desejado e que o risco inicial da liberação e do livre compartilhamento pode garantir mais sucesso.

O cenário, em todo caso, está mudando rapidamente e mesmo que nem tudo se torne gratuito, como querem os que levantam a bandeira da Cultura Digital Livre, uma coisa é certa: quem não estiver envolvido, pouco acesso terá dentro do infinito da Cultura Digital, mesmo tendo bastante dinheiro para dar.

(Esse evento faz parte da programação do Pontão de Cultura Digital - título que foi conferido ao Circo em 2007 pelo Ministério da Cultura e que faz parte do programa Cultura Viva do Governo Federal.
Esse programa, criado em 2004, contempla iniciativas culturais que envolvem a comunidade em atividades de arte, cultura, cidadania e economia solidária e tem como objetivo promover a diversidade cultural.)